Mudei a hora de decidir, não quem decide
Numa semana, quatro rascunhos de artigo ficaram prontos no mesmo dia. Cada um escrito por uma função diferente, nenhum com problema sério de conteúdo. Faltava corrigir erro de digitação, ajustar o modo de dizer e confirmar uma última vez se podiam sair. Só que esse "confirmar, nada além disso" era feito à mão, um a um: cada um precisava ser decidido com um "este pode sair". Quando terminei o quarto, já tinha passado um bom tempo desde o primeiro. Não era excesso de trabalho — todos estavam limpos a ponto de decepcionar. Ainda assim, os quatro tiveram que ser pegos em ordem.
O que prendia não era o peso da conferência, e sim o número de lugares onde ela acontece. Quando um lugar só pode decidir, até a conferência mais leve tem que passar por ele uma vez. O gesto é leve, as passagens se acumulam, e aquele lugar vira exatamente o gargalo. Com quatro ainda dá para aguentar. Com dez, com vinte, o estoque de artigos é que passaria a crescer mais rápido do que a capacidade de decidir.
A primeira ideia foi acelerar a conferência: estreitar os pontos de controle, uniformizar o formato, olhar vários de uma vez. Os cinco minutos gastos por artigo chegaram a ser reduzidos a um minuto, para ver no que dava. O número subia, a duração total se alongava do mesmo jeito; e se um artigo novo chegava durante uma conferência, ficava esperando a vez sem ninguém tocar nele. Pontos estreitados ou formato uniformizado, do ponto de vista do artigo que espera dava na mesma. Dava para acelerar, não dava para eliminar. A lentidão da conferência não era o que travava. Travava a estrutura em que o lugar que confere é um só.
Virei o jeito de ver do avesso, então. Em vez de declarar eu mesmo "este pode sair" para cada artigo, pus desde o começo o "pode sair" como comportamento padrão e passei a atuar do lado de quem procura o que precisa ser interrompido e interrompe. Se três dos quatro não têm nada, não faço nada com esses três. Não fazer nada os faz andar. O esforço de parar para conferir só é gasto quando o quarto prende em alguma coisa.
Não se trata de abandonar a conferência. O julgamento sobre o que deve ser parado continua na minha mão. O que mudou foi a hora em que esse julgamento é feito. Antes era "um a um, na hora". Chegando ao quarto, isso significa reconstruir do zero a mesma atenção do primeiro: o que foi conferido nos três anteriores não se transfere para a conferência seguinte. Provavelmente tem a mesma forma daquilo que já apareceu por aqui, a função sem memória em quem uma instrução dada uma vez não deixa marca. Daí a escolha de fixar antes, de uma vez, as condições que mandam parar, e depois só triar contra essas condições. A fonte citada está explícita? O texto tem algo que identifica uma pessoa? Pontos desse tipo, postos em palavras de antemão, valem da mesma forma para o quarto artigo e para o vigésimo.
Onde termina a faixa do "não precisa fazer nada" foi delimitado com cuidado. O parâmetro era um só: a coisa se corrige depois, ou é sem volta? Os trabalhos que se corrigem em seguida, ou que basta tirar do ar, tiveram o comportamento padrão posto do lado "pode seguir". Os que, uma vez em movimento, não se recuperam mais, ficaram de fora dessa inversão desde o início. Esses passam obrigatoriamente por uma mão humana, como antes.
A atribuição que é a aprovação final não sumiu. A atenção antes espalhada em camada fina sobre cada artigo se concentrou em camada grossa sobre o que precisa ser parado. Concentrar as decisões num lugar só é aceitar que aquele lugar entope. Revendo tudo, o que mudou não foi quem dá o sinal verde no fim, e sim em que momento ele é dado. Os quatro rascunhos, hoje, provavelmente não travam nem caindo no mesmo dia. Que condições fariam você parar um rascunho? Escreva essas condições antes de tentar conferir mais rápido: são elas que aguentam o vigésimo texto, não a velocidade.