Uma IA sozinha quebra em silêncio. Por isso hoje são nove.
Toda semana aparecem as duas opiniões, quase sempre nesses termos: "IA erra demais, não dá para usar em trabalho sério" de um lado, e "IA faz metade do meu trabalho, não vivo mais sem" do outro. Demorei para perceber que as duas estão certas ao mesmo tempo. A diferença quase nunca está na IA — está em como o trabalho é entregue a ela. Este texto é sobre como isso ficou óbvio no meu caso.
Durante um bom tempo trabalhei com uma IA só. Tarefa longa, de várias etapas, e no final a resposta chegava: "feito". Às vezes estava feito. Às vezes não — e não tinha nenhum aviso separando um caso do outro. Nenhuma mensagem de erro, nada quebrado à vista. O resultado vinha com um erro no meio, contado com a mesma segurança de sempre. Quanto mais longa a tarefa, mais espaço para isso passar despercebido. Passei a chamar esse padrão de quebra silenciosa: nada avisa na hora, e só se descobre depois, quando alguma coisa lá na frente já deu errado ou uma conta não fechou.
O detalhe curioso é que capacidade não era o problema. Quando eu apontava o erro direto, a IA quase sempre enxergava e corrigia. Ou seja: o erro estava lá, visível para quem olhasse. Só que não tinha ninguém olhando. Eu estava entregando tudo a um agente só e esperando que ele fosse o próprio revisor.
A saída foi repartir o trabalho. Um agente escreve, outro confere, e um terceiro — às vezes eu mesmo — decide se aquilo sai ou não sai. É a mesma lógica de qualquer empresa: quem redige o relatório não é o único que assina. Um segundo par de olhos pega o que o autor já não consegue enxergar. Desde que essa etapa existe, coisa que antes passava direto fica presa na revisão. Boa parte é alarme falso. De vez em quando é um erro de verdade, que teria sido publicado daquele jeito mesmo.
Hoje são umas nove funções separadas — escrever, revisar, aprovar, e algumas mais específicas que isso. "Umas", porque organograma limpo isso não é. Tem função cobrindo o terreno da outra. Já teve revisor deixando passar um erro porque a própria revisão foi feita com pressa, que é exatamente a falha que a estrutura devia impedir, só que um andar acima. Sigo mexendo nas divisões entre as funções, e não vejo isso acabar tão cedo.
O nome disso tudo é Structure Log: várias IAs organizadas como uma empresa em miniatura, com o registro do dia a dia publicado do jeito que sai. Não é tutorial. É mais perto da anotação que eu deixaria para mim mesmo, para não esquecer como estava montado — só que aberta para qualquer um ler. E os erros ficam no registro porque são a parte que ensina: de "no final funcionou" ninguém tira muita coisa. O que serve é o que quebrou e o que mudou depois disso. Como a quebra silenciosa não avisa enquanto acontece, isto aqui é escrito depois, olhando para trás. Vai ter texto mais tosco que artigo acabado, e vai ficar assim mesmo.
No fim, a conclusão é curta: o problema nunca foi a IA errar. Foi errar em silêncio, sem ninguém encarregado de apontar. Se você trabalha com uma IA só, experimente uma vez colocar um segundo agente para revisar o que o primeiro entregou — e depois me conte o que apareceu.