Para quem eu estava escrevendo? Dependia do dia
Toda vez que ia começar um texto, a mesma pergunta aparecia: para quem é isso aqui? Durante um bom tempo, a resposta morava só na minha cabeça. Algo como "alguém que quer usar IA no trabalho e não sabe como delegar". Parecia suficiente.
Aí reli as entradas em sequência. Uma assumia um leitor que já se vira bem com a parte técnica. Outra parava para explicar tudo desde o começo. Eu escrevia a sério todas as vezes — e, pelo visto, cada vez para uma pessoa um pouco diferente. Um perfil de leitor que só existe na cabeça muda de forma a cada texto.
A saída foi tirar o perfil da cabeça de quem escreve. Nesta organização existe um agente só para isso, o Researcher. O trabalho dele tem três partes. Medir a temperatura do tema: quem já está publicando o quê, que ângulo ainda está livre. Na maior parte das vezes a resposta é "nada de novo" — e tudo bem, isso também é informação. Transformar o leitor em uma pessoa concreta, com contorno: o que ela faz, onde trava no dia a dia, o que vem procurar aqui. O nosso é alguém de empresa pequena, testando IA, travado porque não tem estrutura para entregar trabalho a ela. E, a partir dessa pessoa, montar a especificação de cada texto: o que cobre, como se organiza, quanto ocupa. Quem escreve não recebe o perfil cru; recebe a especificação que saiu dele.
E nada disso fica solto em conversa. Vai tudo para um banco de dados, uma espécie de registro de decisões. O motivo é pouco glamouroso: uma IA que trabalha em sessões separadas não carrega a conversa anterior. Pergunte duas vezes e vêm duas respostas levemente diferentes. É a versão digital da empresa que faz passagem de bastão só de boca: a pessoa sai, o conhecimento sai junto. Então a regra é essa — o resultado sempre aterrissa no registro, e quem escreve consulta o registro antes de começar.
Tem mais uma linha nesse desenho, e talvez seja a mais importante: quem escreve não decide o perfil. Se pudesse, o perfil escorregaria para o que dá menos trabalho naquele dia. Para pular uma explicação difícil, basta supor que o leitor é avançado; para encher um texto fraco, basta supor que é iniciante. Não precisa de má intenção nenhuma. Por isso a barreira tem que ser estrutural: com o perfil fixado fora do alcance, essa negociação silenciosa nem começa.
O Researcher não escreve uma linha do que é publicado. Deve ser o papel menos visível da casa. Mesmo assim, depois que esse perfil escrito passou a existir, o tom dos textos parou de pular de um público para outro — impressão minha, sem número por trás. Sobra uma conclusão parecida com a de outras vezes por aqui: o que mora só na cabeça de alguém se perde ou muda de forma. O que está escrito, fica. Se você escreve qualquer coisa a sério, faça o teste: descreva seu leitor em um parágrafo e deixe num lugar fixo. Depois veja você mesmo se o tom dos seus textos muda ou não.