A frase do rodapé não muda de humor
Tem uma frase no pé de cada página aqui: este blog é feito em co-autoria com IA. É pequena, fácil de passar batido. Por um tempo eu não sabia se ia colocar.
O argumento contra era simples. Lixar os tiques, ajustar o ritmo, e provavelmente ninguém teria percebido. E se ninguém ia perceber, por que dizer.
Coloquei mesmo assim. As razões se organizaram depois; o primeiro empurrão foi mais sem graça que isso: esconder começava a dar mais trabalho que não esconder, acho.
Decidido isso, faltava ver em que consistia a divisão. Ao colocar no papel, saiu mais embolado do que eu esperava.
Três partes, mais ou menos. O roteiro e a escolha dos temas são meus: o que entra, em que ordem, com quanto detalhe. O mapa da série toda fui eu que desenhei. O rascunho vai para o tipo de IA que gera texto. E a revisão antes de publicar, junto com a decisão de sair ou não, volta para mim. O projeto e a decisão final ficam do meu lado; o que se delega é só gerar o texto. Nada de automático de ponta a ponta, e nada de soltar do jeito que vem.
Essa última parte não é só passar o olho. Olho se o rascunho desviou do que aconteceu de verdade, e se saiu das regras de escrita que fixei. O que desviou se corrige; o que saiu, volta para ser reescrito.
As instruções que eu entrego são mais detalhadas do que parecem. A forma da primeira pessoa fica presa em uma só e não anda — para a voz não embaçar e o texto continuar sendo lido como o registro de alguém, era essa a razão, acho. Os termos técnicos são destrinchados na primeira vez que aparecem; isso saiu de não querer que ninguém seguisse lendo sem saber o que uma palavra significava, e mantenho. Nada escrito para arrancar o clique, porque arrastar alguém para ler não deixa nada depois, ou era essa a impressão que eu tinha. E a temperatura da prosa: esse registro de caderno. Umas dezenas de itens, todos decididos antes.
Então não é que a IA escreva livre. Parece mais despejar texto num molde que eu já fiz. O que empurra o trabalho para o meu lado da mesa, para o de escrever as instruções, e isso também leva tempo.
Com a divisão no papel, o motivo para esconder foi minguando.
O que apareceu no lugar foi o contrário: o que custa esconder.
Tem o que acontece quando se descobre depois. Algo lido como escrita de uma pessoa acaba sendo gerado, e a confiança que havia vai embora de uma vez. Parecido com quem toca um negócio sem o nome da empresa na porta e depois é descoberto. Melhor deixar na frente desde o começo.
Tem também o chão de quem lê. Sabendo que foi gerado, se lê como texto gerado: conferir um procedimento antes de testar, procurar um número em outro lugar por garantia. Escondido, não sobra chão nenhum.
E funciona em mim. Dito em voz alta, não dá para soltar algo frouxo, e a pressão fica. O que se escreve sai menos descuidado quando alguém pode estar olhando — isso eu já escrevi antes, acho, e isto não é uma extensão daquilo, é a mesma coisa ainda funcionando. Saber que vai ser lido muda o que de fato se faz. No ponto em que fechar de qualquer jeito começa a parecer atraente, volta o fato de que aquilo sai publicado, e dou mais uma passada. Um loop chato, mas publicar é o meu próprio controle.
Outra regra, já que estou aqui: a expressão não é reformulada conforme o dia. "Com auxílio de IA" hoje, "com apoio de IA" amanhã, "assistido por IA" depois — a formulação poderia ter variado à vontade, e decidi que não. Se varia, se perde de vista até onde a IA vai. Como trocar o nome da empresa nos papéis que vão para um cliente a cada vez: sem intenção de escapar de nada, mas se lê como escolher as palavras para embaçar algo.
Entre os lugares onde vai, a formulação se dobra um pouco. No blog fala do conjunto; onde as peças são lidas uma por uma, fala da peça. As bordas seguem o meio, e o núcleo — co-autoria com IA — fica parado onde for.
Uma linha fixa no pé da página, e nada além disso. Ainda assim, é o que me impede de perder de vista onde o meu próprio trabalho acabou. Sem ela, a coisa escorrega para trás antes de eu perceber.