A pronúncia era a parte descartável
Escrevi esta frase de propósito com a regra da casa desligada:
"Neste projeto, o subagent trabalha a partir do SPEC para redigir o corpo do texto, e passa um tone check antes de cruzar o QA gate."
O esqueleto dá para ler. Alguém age sobre alguma coisa, numa certa ordem. Só que o primeiro termo já trava um tipo de leitor, e quando SPEC, QA gate e tone check se empilham atrás dele, cada um fica embaçado. A estrutura se analisa e a atividade não. É estranho ficar nesse estado.
Com as explicações no lugar, a mesma frase fica assim: o subagent (uma unidade pequena encarregada de um único papel) trabalha a partir do SPEC (o documento que diz o que precisa ser construído) para redigir o corpo do texto, e passa um tone check (a conferência de que o texto soa como deveria soar) antes de cruzar o QA gate (o filtro de qualidade antes de qualquer coisa sair). Pesa mais, e talvez canse mais a vista. Mas dá para acompanhar o que está acontecendo. E é aí que boa parte das pessoas decide se continua lendo ou larga, pelo que sinto.
É a regra que sigo aqui, e internamente eu chamo de regra do vocabulário de ensino fundamental. Termo técnico nenhum fica sozinho. Escrevo "agente" e vem logo atrás a explicação: um jeito de entregar um papel a uma IA e deixar ela funcionar. Escrevo "aprovação passiva" e segue a glosa: um fluxo em que, se nenhuma objeção chegar dentro do prazo, aquilo conta como aprovado. Não é alongar o texto. São umas palavras enfiadas logo depois do termo, e acabou.
Quem esbarra num termo desconhecido atrás do outro não guarda aquilo para procurar depois. O julgamento é mais rápido e mais grosseiro: isto aqui não é para mim. Mais do que uma afirmação sobre leitores em geral, é algo que reconheço, porque comigo acontecia igual quando eu estava lendo.
Por um tempo os parênteses carregaram duas coisas ao mesmo tempo. Uma era o significado. A outra era a leitura, como se pronuncia um composto japonês, a transcrição em katakana de uma palavra inglesa. As duas entravam lado a lado, como se fossem o mesmo tipo de ajuda.
Só uma delas continua ali.
Acrescentar a pronúncia parecia, na época, fazer parte da mesma regra. Não fazia. Não conseguir pronunciar uma palavra e não saber para o que ela aponta são falhas diferentes, e só a segunda trava alguma coisa. Um composto com caracteres que resistem pode ser lido de passagem, desde que o significado tenha chegado. O contrário não se sustenta.
Numa reunião, explicando um termo para outro setor, funciona igual: pronunciar devagar para eles não muda nada se o conteúdo não aterrissa.
O que deixou isso claro foi reler um monte de textos antigos de uma vez. Linha atrás de linha com os parênteses ocupados por uma leitura e mais nada dentro, sem explicação nenhuma. Na hora achei que aquilo estava errado. Tinha entrado mais pronúncia. Significado, não.
Então a leitura saiu, a glosa ficou, e não parece que se perdeu nada. Se é que teve diferença, as frases estavam piores antes, esticadas por parênteses carregando sílabas.
Tem uma pessoa concreta por trás disso tudo, e essa pessoa é uma construção, não o resultado de uma pesquisa. Letramento tecnológico alto, mas sem experiência própria em fazer várias IAs trabalharem juntas. Entre trinta e poucos e quarenta e poucos, cuidando dos sistemas de uma empresa pequena ou média. Travada, especificamente, em quem gerencia qual agente e como.
Dá para empilhar termos na frente dessa pessoa, e o que volta é admiração. Só isso. Depois não se tenta nada. Narrar com palavras comuns, tentei isto e deu aquilo, parece mexer mais com quem lê, pelo menos era assim do lado de quem lia. Um artigo denso em terminologia transmite a competência de quem escreveu. Se o leitor leva alguma coisa embora, já é outra conversa.
Nada disso começou pelo leitor, para ser honesto. A primeira razão era interesseira: colocar um termo em palavras simples organiza aquilo na minha cabeça.
O efeito colateral acabou sendo a metade maior, ou é o que eu sinto agora. Tentar destrinchar um termo deixa à mostra até onde vai o meu domínio daquele termo.
"Aprovação passiva" não se deixava reduzir. A primeira tentativa, um sistema em que não dizer nada equivale a um sim, saiu torta: parecida no contorno, errada no tom. Depois de algumas reescritas virou um prazo para objetar, com aprovação no vencimento, e aí chegou perto. Para uma frase só, o caminho até ali foi longo. A versão que uso no começo deste texto, a do prazo sem objeção, é onde a coisa acabou assentando.
Tem um tipo de chefe que entrega um trabalho para o novato falando só em jargão, e quase sempre esse chefe também não domina a tarefa. Não conseguir dizer de forma simples costuma ser o sinal.
Escrever um termo direto, sem abrir, pode não significar mais do que estar se apoiando nele. Quem entende alguma coisa deveria conseguir colocar aquilo em palavras comuns, e se não sai, é a indicação de voltar para o projeto. Como conferência sobre mim mesmo, por enquanto funciona.