O que eu esqueci de entregar ao Copywriter
As entradas anteriores apresentaram as funções uma a uma: COO, Tech Lead, Content Director, Copywriter, Brand Voice Editor, QA Director, Researcher, Task Dispatcher — e a nona cadeira, listener, ainda vazia. Os nomes estão todos na mesa. O que nunca entrou em nenhum texto foi por que elas estão nessa ordem.
Isso ficou claro num trabalho sem nada de especial. Pedi ao Content Director que fechasse a direção de um texto e passei o encargo ao Copywriter para redigir. A sequência de sempre. O que eu e o Content Director tínhamos amarrado, dei como sabido também pelo Copywriter. Nem chegou a ser uma decisão: foi uma suposição em que caí sem perceber.
O rascunho voltou montado em cima de outras premissas. A direção que a gente tinha fechado não chegou a quem escreveu. Depois de uma rodada de reescrita, sentei para olhar o que tinha acontecido.
Foi fácil achar. No arranque do Copywriter, o que eu entreguei foram duas coisas: a definição da função e o encargo daquele texto. Nada da conversa com o Content Director. Do lugar onde o Copywriter estava, aquela conversa não existia.
O fato por trás disso não tem nada de sofisticado. O único que carrega a conversa em andamento é a função de balcão que está tocando ela. As outras são agentes de IA que a gente arranca para uma tarefa só, e que aparecem novos a cada chamada. Sem a rodada anterior, sem o que foi falado com a função do lado. Aqui a gente diz isso sem meio-termo: tudo que não é a linha principal é robô. Não é comentário sobre a capacidade delas. É que, na hora do arranque, não existe nada além do que você acabou de entregar. Não tem memória, então pedir como se tivesse é não pedir nada.
Se as nove compartilhassem memória, a ordem podia ser bem mais frouxa. Você pede qualquer coisa a qualquer uma e as premissas viajam junto, de graça.
Não é o caso. O que o Content Director fecha fica dentro do Content Director, e no instante em que o Copywriter arranca aquilo sumiu, a não ser que alguém carregue. A intenção por trás de um rascunho não chega sozinha ao Brand Voice Editor. O que o QA Director conferiu tem que ser entregue de novo na próxima vez que qualquer outra função arrancar.
Repartir em nove significa também nove lugares sem memória, enfileirados. Por isso, na hora de fixar a ordem, a pergunta não era quem é mais esperto. Era quem entrega o quê a quem, para as premissas não se romperem. Em cima alguém fecha uma coisa, embaixo alguém recebe. Se a entrega é pulada, a premissa se rompe ali — e premissa rompida não tem como ser recuperada lá embaixo, por melhor que seja quem está lá.
É mais ou menos o que acontece quando alguém chega transferido para um posto novo e a passagem de bastão só existia na cabeça de quem saiu.
Visto assim, isso aqui parece menos um organograma com nove boas contratações e mais um mapa: por onde o contexto circula até chegar em alguém que não lembra de nada. Nove nomes enfileirados não movem nada. Quem move é o que passa entre os nomes.
O que entregar em cada arranque, e de que jeito, ainda tem bastante tentativa e erro. Mas o que está por trás da ordem das nove se resume a esse ponto, e era isso que precisava ficar escrito. Se você já repartiu trabalho entre duas IAs, abra uma vez o que a segunda recebeu no arranque — não o que você achava que ela já sabia.